Pela Rota 5 Sul, a 140 quilômetros de Santiago, está o belíssimo e prestigiado vale de Colchagua. Uma zona campesina por tradição, onde a cultura do vinho começou ainda no século XVI com a chegada dos colonizadores espanhóis, que trouxeram e plantaram as primeiras parreiras na região.
O vale é cercado pelas montanhas das Cordilheiras dos Andes e Costa, e é banhado pelas águas do rio Tinguiririca. O clima é marcado por verões calorosos – secos e prolongados – e invernos moderadamente chuvosos.

Roda de Negócios
No mês de agosto participei, junto a um grupo de agências de turismo, de uma Roda de Negócios para conhecer a riquíssima oferta turística do vale de Colchagua.
O vale está formado por pequenos e médios produtores que buscam visibilizar o enoturismo em suas vinícolas. Colchagua também tem uma rica oferta de hospedagem, restaurantes e atividades na natureza. Um destino que oferece experiências autênticas e saborosas, e que merece dois, três e até mais dias de andanças.

O encontro foi organizado pela @colchaguacamaradeturismo, e nos receberam as vinícolas @vinosmontes e @laurahartwigwines, com um generoso almoço no restaurante @fuegosdeapalta.
Uma semana em Colchagua
Meu marido e eu já tínhamos programado passar uma semana no vale de Colchagua, em outubro, antes mesmo de chegar o convite para a Roda de Negócios. Aproveitei a feliz coincidência e ajeitei nossa programação para fazer algumas desejadas visitas técnicas.
Nessas visitas técnicas procuro ter um olhar mais crítico. Observo aspectos que considero importantes para que a experiência realmente valha a escolha de vocês, entre tantas boas opções de enoturismo no Chile. Participo como um enoturista exigente e espero viver histórias reais, com sentido de origem. Quero escutar relatos envolventes e que me surpreendam. Quero aprender e desfrutar. Quero comer bem. Quero me encantar com o lugar. E claro, quero provar bons vinhos na temperatura ideal de cada um, em taças que brilhem, servidas com a simpatia e os conhecimentos de quem me recebe.
Foram dias de descanso, paisagens lindíssimas, bons restaurantes, muitos bons vinhos, praias, novos amigos, eventos e, algumas visitas bem especiais em vinícolas de pequenos e médios produtores.
No final das taças, achei que uma semana foi pouco. Mas como o nosso projeto de vida é viver lá em alguns anos mais, sei que vamos voltar e provar todas as riquezas que o vale oferece.
Dias 1 e 2 | Chegada, Huique e Santa Cruz
No dia da nossa chegada fomos recebidos pelo Christian, dono do @colchaguafarmstays. Ele nos apresentou o lugar, onde mora junto dos seus cachorros, gatos, ovelhas, cavalos e plantações de cabernet sauvignon.

Na primeira manhã no loft acordamos com uma cesta deliciosa de café na nossa porta. Ajeitei a mesa com vista para as plantações e, posso dizer que foi um dos melhores “desayunos” do ano! Depois fomos visitar Huique, uma cidadezinha que faz parte do vale de Colchagua e onde temos nosso terreno. Ali estão plantadas parreiras de uma uva conhecida como tintureira (alicante bouschet), elas estão sobrevivendo sem cuidados e só com água de chuva. E assim vai ser até que a gente possa se mudar para lá. Eu falo todos os dias para o Eduardo que já estou pronta para ir morar no campo e cuidar das minhas queridas parreiras.

Fomos almoçar na cidade de Santa Cruz, que fica bem perto de Huique. Na carta do restaurante @clubsocialsantacruz encontrei um fresco sauvignon blanc @vinalasninas, foi minha feliz escolha para acompanhar a tortilha espanhola com salada chilena que pedi.
Antes de voltar para o loft, visitamos o @museocolchagua. Um dos mais completos da América do Sul, com diversas salas temáticas: paleontologia, arqueologia, geografia e história, desde as culturas pré-hispânicas até a atualidade. Um dos temas atuais mais interessantes é a exposição “O grande resgate”, que conta com detalhes sobre os 33 mineiros que foram resgatados com vida depois de passarem 69 dias soterrados em uma mina no norte do Chile, no ano de 2010.

Dia 3 | Polkura e MontGras
Começamos as andanças do dia pela @polkura, uma vinícola boutique criada em 1999, e que tem a syrah como sua uva destacada.
Polkura, na língua mapuche, significa “pedra amarela” e representa o granito amarelo que predomina na paisagem. Um lugar escolhido por Sven e Gonzalo, dois amigos de faculdade que tinham um sonho em comum: criar vinhos que expressassem sua origem com autenticidade.

Quem nos recebeu foi a queridíssima Ivana, guia da vinícola, e acompanhada do viticultor Cristián, nos levaram de caminhonete até o alto do Cerro Polkura. Uma aventura de passeio que adorei! No caminho foram contando sobre as generosidades do solo e clima do lugar, onde a syrah encontrou as condições ideais para se desenvolver.
No mirador, com uma vista belíssima para as infinitas plantações, provamos o Aylin: um fresco e vibrante sauvignon blanc, de uvas cultivadas no vale costeiro de Leyda.
Depois, provamos um cabernet sauvignon e quatro syrah. Todos, sem exceção, deliciosamente elegantes, perfumados e saborosos. Joias de um sonho realizado! E já na hora de ir embora, tivemos a sorte de encontrar com o Sven.

Dali, seguimos para a @montgraswines, uma vinícola de tamanho médio e que produz uma linha bem variada de vinhos. Foi fundada em 1993 pelas famílias Gras e Hartwig, com um foco definido: qualidade e inovação.
Fomos recebidos pelo guia Marcelo, quem nos levou para a área externa da casona de estilo colonial, onde um saboroso almoço harmonizado de quatro tempos nos esperava. Desfrutamos dos quatro pratos e de todas as taças servidas, sem pressa. Foi um feliz momento gastronômico!

Depois, conhecemos a adega privada, onde uma coleção de vinhos de diferentes safras, alguns bem antigos, são cuidadosamente guardados. E para terminar, participamos da criativa atividade “Faça o seu vinho”, uma experiência em que misturamos diferentes proporções de vinhos monovarietais, até chegar na nossa mescla ideal. Com a mescla pronta, fechamos a garrafa com rolha, selamos com cera e etiquetamos. Levamos para casa a garrafa do nosso vinho, o avental que usamos e o aprendizado.

Dia 4 | Siete Wines e Viu Manent
No dia quatro das nossas andanças pelo generoso vale de Colchagua fomos visitar duas vinícolas com realidades que contrastam e encantam: Siete Wines e Viu Manent.
Começamos por @siete_wines, ganhadora do Prêmio de Melhor Experiência Regional “Enoturismo à Escala Humana”, em 2025, oferecido por @enoturismochile.

Quem nos recebeu foi o enólogo Manuel, ele e sua família são os donos de um projeto desenhado para oferecer experiências de aprendizado e desfrute, em um entorno de aconchego campestre. Para o visitante, têm várias atividades: faça o seu vinho, degustação com maridagem, piquenique, trekking e ofurô com vista para o vinhedo.
A vinícola nasceu em 2020, é bem jovem, e o nome está relacionado aos sete vinhos que Manuel produz, entre vinhos doce, branco e tinto. Todo o processo de produção, desde a terra até a garrafa é feita pelo Manuel, sua esposa Patricia – que deixou de advogar para se dedicar ao projeto – e seus dois filhos. No período de vendimia outros familiares participam, fazendo da colheita um bonito evento de família.
Manuel tem paixão pelo que faz e gosta de compartilhar seus conhecimentos. Nas quase três horas que estivemos com ele, provamos seis vinhos e recebemos uma aula de cultivo e produção artesanal.

Dali, seguimos para a @viumanentwinery onde o Freddy, gerente de turismo, nos esperava para mostrar as experiências que a vinícola oferece. Começamos pela sala Malbec, onde a história da família Viu Manent é contada através de fotografias, antigas e recentes. Nessa mesma sala, tem painéis que mostram os três campos de plantações e seus diferentes tipos de solos. Cada solo, uma linha de vinhos com identidade de origem.

Depois, nos apresentou a adega particular da família, ali tem algumas joias que são relíquias. Seguimos pelo espaço de eventos, jardim de variedades e fizemos um passeio da carruagem entre as plantações até as salas de produção e guarda. Na volta, conhecemos o @vibowinelodge e o @foodandwinestudio da prestigiada chef chilena Pilar Rodríguez. Uma hospedagem entre plantações e um restaurante de autor que transformam a visita na Viu Manent em uma experiência de luxo. O luxo de estar no campo.

Dia 5 | Descanso, piscina e outras experiências
Depois de quatro dias de andanças, tiramos um para desfrutar da nossa hospedagem, um lugar rodeado do verde das plantações e do céu azul desenhado de nuvens.
São apenas dois lofts mais a casa do Christian, dono da hospedagem. O entorno é lindo, feito de parreiras, oliveiras, laranjeiras, ovelhas, cavalos e tranquilidade. Acordamos todos os dias com o café da manhã na nossa porta, é ele mesmo quem prepara, tudo fresquinho, do campo, pão quentinho.

Nesse dia de descanso fomos almoçar no restaurante italiano @vinobelloristorante, e pedimos vinhos por taças para acompanhar os diferentes pratos. O meu foi um ravioli de espinafre com carne assada e uma taça de carmenere. O prato do marido foi um risoto com frutos do mar e uma taça de chardonnay. A maridagem e a conversa foram ótimas!

No dia em que chegamos o Christian nos recebeu com uma garrafa de chicha feita por ele, das uvas de cabernet sauvignon que estão plantadas no terreno, herança de família. A chicha é uma bebida fermentada de uva, doce e com pouco álcool, engana porque parece suco. Ela é feita tradicionalmente com a uva país, mas ele quis se aventurar e o resultado foi: tomamos a garrafa toda!

Em uma das noites aproveitamos a nossa piscina particular, de água aquecida com lenha. Nós, o céu estrelado, música e uma garrafa de vinho. Foi um momento perfeito. Sobre o vinho na beira da piscina, um pinot noir da @mateticvineyards, ele foi meu escolhido da noite. Um “intruso maravilhoso” em terras colchaguinas.

No final das plantações tem um esteiro. Chegamos lá quase duas vezes: na primeira passamos algumas horas ali, levamos nossas cadeiras e ficamos só escutando o som dos pássaros e do movimento da água. Na segunda vez (o dia do retorno), não chegamos. O carro caiu em um buraco e só saiu com a ajuda de um trator.
Na nossa última manhã, acordei pulando da cama com um rebanho fofo e barulhento de ovelhas passando na nossa porta. E adivinhem? Fui lá falar com elas, rs. Depois, tomamos café da manhã no quintal, bem acompanhados do Christian e da Mariana @reinaentrecopas – mais uma feliz coincidência para contar em outro post. Parecia uma manhã tranquila de retorno, as malas já estavam prontas e no carro, a gente só queria dar uma passadinha no rio antes de começar a voltar para Santiago. Aí veio a vida para nos mostrar os perrengues de viver no campo.
Dia 6 | Pichilemu e Punta de Lobos
No sexto dia das nossas andanças fomos para o litoral de Pichilemu e Punta de Lobos, e como todos os outros dias, tomamos nosso caprichado “desayuno”. Saímos já passava das 10h da manhã, animados com o roteiro.
Chegamos em Pichilemu antes do meio-dia. Estava nublado e vinha um vento frio do mar. Fizemos um passeio demorado à beira-mar, vimos o movimento dos barcos e surfistas. Tive aquela sensação boa que só o mar me traz.
Daí fomos para Punta de Lobos, uma praia linda rodeada de rochas e penhascos, e um comércio local de povoado. Ali ficamos contemplando a força das ondas, o céu desenhado de nuvens e o vaivém das gaivotas.

Voltamos para Pichilemu e almoçamos no @lasalpichilemu, uma ótima recomendação do Christian (da hospedagem). De frente para o mar, música ambiente, bom atendimento, boa comida e, uma carta de vinhos que me surpreendeu! Encontrei uma joia de sauvignon blanc feita pela @familiageisse, um vinho deliciosamente aromático e fresco, e que acompanhou muito bem os pratos que pedimos: um fettuccine negro com molho de coco e camarão, e uma merluza austral com risoto de champignon. Delícias chilenas, do mar e da terra.

Terminamos o dia na areia da praia, maravilhados com a beleza do pôr do sol no oceano Pacífico.

Dia 7 | Evento Open House Ranquilhue
No dia sete das nossas andanças por Colchagua fomos no evento “Open House”, organizado por Diego Nicolás, dono e enólogo da @vinaranquilhue.
Ranquilhue é uma vinícola pequena e familiar, segue os conceitos da agricultura regenerativa, tem um corredor biológico para o controle das pragas e se abastece 100% com energia solar. A adega de produção está em outro lugar, e as experiências de enoturismo na Ranquilhue são todas relacionadas ao campo.
O evento foi uma tarde de portas abertas na vinícola, com música ao vivo, produtores locais de artesanato, comida e, as joias que Diego produz em pequenas quantidades. Para participar, compramos um ticket que dava direito a um almoço campestre acompanhado de duas taças + a degustação de sete vinhos durante o evento.

Depois do almoço, Diego nos levou por um passeio pelas plantações, e contou com paixão, sabedoria e um toque de humor sobre sua trajetória no mundo do vinho, e os cuidados que ele tem com as uvas carmenere, petit verdot e cabernet sauvignon, que estão plantadas ali mesmo para a produção dos vinhos tintos. Em outro vale, estão plantadas as uvas carignan e portugais bleu, usadas na elaboração de um rosé e um espumante.

Durante toda a tarde as pessoas foram chegando, alguns vieram de longe e outros eram vizinhos do Diego, e quase todas se conheciam. Esse é o bacana de participar de experiências com pequenos produtores, é que a gente se sente entre amigos. Temos o privilégio de conhecer além dos rótulos, podemos conhecer um pouco da vida de quem faz os vinhos, sua forma de produzir e o que o torna único e especial.
Dia 8 | O dia do retorno para Santiago
Esse foi o dia em que acordei com o rebanho fofo de ovelhas e que o nosso carro caiu em um buraco.

Fim.
Espero que minhas andanças motivem vocês a provarem o vale de Colchagua, um destino de belezas e delícias únicas no mundo!


