Valparaíso

Valparaíso é um labirinto de ruas estreitas, de escadas íngremes e incontáveis janelas com vista para o azul intenso do oceano Pacífico. A sua arquitetura é impressionante: cresceu subindo os morros de forma desordenada, as suas casas parecem estar suspensas no ar e os seus imensos murais colorem e alegram toda a cidade.

Um pouco de história

Valparaíso foi batizada pelos marinheiros como a joia do Pacífico e a sua “história oficial” começou a ser escrita pelos espanhóis por volta do ano de 1559, com a construção da igreja La Matriz. Durante o período da colônia, Valparaíso foi o porto de entrada a Santiago e o seu comércio foi quase que exclusivamente com o porto de Callao, no Peru. Com a independência do Chile em 1818, a liberdade de comércio permitiu o crescimento econômico da cidade e ondas de imigrantes franceses, alemães e ingleses desembarcaram no porto de Valparaíso em busca de oportunidades. Com a chegada de tantos imigrantes, a cara de Valparaíso se transformou. A cidade ganhou ares de cosmopolita, o que se refletiu também na sua arquitetura. Na área plana da cidade, casas de dois e três andares seguindo o estilo europeu e importantes edifícios começaram a ser construídos. Os morros foram escavados para dar espaço ao crescimento urbano, e o material extraído foi usado para ganhar terreno no mar. Nesse mesmo período, as ruas foram pavimentadas, se desenvolveu o transporte coletivo e a cidade ganhou praças e calçadões. O plano da cidade foi ocupado pelos comerciantes estrangeiros e os grupos sociais mais pobres subiram os morros.

O crescimento da cidade e o auge econômico fez aparecer uma classe emergente que se dedicou ao comércio e aos serviços, com a abertura de mercearias, jornais e cartórios. Um grupo de ingleses, cansado de sofrer com as inundações frequentes, subiu o morro e se instalou no Cerro Alegre, onde se desenvolveu um bairro de luxo isolado da sociedade portenha. O porto chegou a seu auge quando Valparaíso passou a ser uma parada obrigatória dos barcos que vinham do Atlântico e cruzavam o Cabo de Hornos, o que fez desenvolver um intenso comércio internacional. Mas, apesar das oportunidades, uma parte da sociedade portenha seguiu vivendo numa situação de marginalidade, a pobreza e as doenças eram comuns nos lugares de diversão frequentados pelos marinheiros que chegavam ao porto.

Desde o início da sua história, Valparaíso também sofreu com ataques de piratas, incêndios, terremotos e tsunamis. Em 1730, um forte terremoto provocou um tsunami que inundou a parte plana da cidade. O terremoto também provocou destruição em Santiago e outras três cidades no Chile, além de provocar destruição em Callao, no Peru. O mesmo tsunami atravessou o Pacífico e atingiu a cidade japonesa de Sendai. Mas o terremoto de 1906 foi o que provocou mais danos para o porto e destruiu praticamente toda a cidade. Também nos anos de 1822, 1985, 2010 e 2015 Valparaíso foi atingida por terremotos e tsunamis. Com a construção do porto de San Antonio em 1912 e a abertura do Canal do Panamá em 1914, que afastaram o comércio do porto de Valparaíso, a cidade começou a decair. Tantos contrastes e inclemências levaram a joia do Pacífico a se transformar em ruínas.

O renascimento do porto

A beleza caótica de Valparaíso atraiu poetas e escritores que foram viver no porto. Pablo Neruda [poeta chileno e prêmio Nobel de literatura] inaugurou a sua casa batizada de La Sebastiana em 1961. O Congresso foi transferido para a parte plana de Valparaíso após o golpe militar em 1973, e importantes universidades construíram as suas sedes em Valparaíso, entre elas a Universidade do Chile e a Universidade Católica. A economia mais estável do país permitiu um novo crescimento ao comércio portuário, tornando Valparaíso novamente um importante polo econômico. Programas do governo recuperaram a cidade e promoveram o turismo, e em 2003 o centro histórico de Valparaíso foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Hoje, a cidade portenha de Valparaíso é a capital cultural do Chile e um dos destinos mais procurados por viageiros do mundo todo.

A diversidade de Valparaíso convive em uma harmonia caótica. As suas ruas são íngremes e estreitas, as suas casas são antigas e coloridas, pintadas com sobras de tintas dos barcos pesqueiros. Em imensos murais, muros e casas, artistas grafiteiros de todo o mundo representam a beleza, a história e a cultura de Valparaíso. Os ascensores – um tipo de bondinho no trilho – sobem e descem desde 1883, deslocando moradores, estudantes e turistas entre a área plana da cidade e os 42 morros que formam a parte alta de Valparaíso.

Nas ruas estreitas dos morros Concepción e Alegre está a maioria dos ateliês, galerias de arte, restaurantes, cafés, bares, hotéis e pousadas da cidade. Pelas ruas movimentadas desses dois morros circulam artistas locais, estudantes e turistas que mesclam culturas e idiomas do mundo todo. Cachorros e gatos de rua se misturam ao cenário, e de fundo tem o azul do mar. Pablo Neruda escolheu o cerro Bellavista para a sua La Sebastiana, uma das três casas do poeta. Em 1991, a La Sebastiana – junto com a La Chascona em Santiago e a casa de Isla Negra – passaram a ser casas museus e abertas ao público para visitações. Dentro da casa estão expostos os objetos pessoais, os móveis e as coleções de Neruda. No quintal da casa tem uma cafeteria, uma loja e um mirador com vista para o azul maravilhoso do Pacífico, beleza que inspirou Neruda a escrever alguns dos seus mais importantes poemas. No Cerro Artilleria tem um mirador com uma vista lindíssima para a baia de Valparaíso e de onde se vê todo o movimento do porto. Centenas de containers gigantes, coloridos e carregados de todo tipo de mercadoria chegam e saem a cada hora, dia e noite. O porto de Valparaíso é um dos principais do Chile e movimenta incontáveis milhões de dólares. No mesmo mirador do Cerro Artilleria está o Museu Marítimo Nacional, que conta toda a história das inúmeras batalhas chilenas, e também alguns restaurantes e uma feira com artesanato típico.

Te recomendo

Valparaíso é um maravilhoso mosaico multicolorido de história, arte e cultura. Um lugar único no mundo para ser vivido, sentido e tocado. Te recomendo uma tarde inteira pelos morros da cidade, para caminhar entre as suas ruas, passear de bondinho, fotografar os seus murais e almoçar com vista para o azul do mar.

O Caminho

Seguindo no sentido oeste do país, a Rota 68 é a estrada que leva até o porto de Valparaíso. Partindo do centro de Santiago, o tempo até o litoral é de uma hora e meia, sem paradas e em dias de baixo movimento. A viagem costuma ser tranquila, a estrada é bem conservada e o caminho é lindo, cercado pelas montanhas da Cordilheira da Costa. No caminho até Valparaíso está o vale de Casablanca, um dos importantes vales de plantações de uvas do Chile e onde encontramos as vinhas Emiliana, Casas del Bosque, Attilio e Mochi, Bodegas Re, entre outras. Uma boa combinação de roteiro é juntar as delícias das vinhas com a beleza do litoral!


 

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