Região do Vale Central: pura generosidade!


O Vale Central é a maior região do país dedicada ao cultivo de uvas e a produção de vinhos e é onde estão as plantações mais antigas e tradicionais do país. Está fracionado em quatro importantes e conhecidos subvales: Maipo, Rapel, Curicó e Maule. É a zona mais povoada do Chile e onde se encontra a sua capital, Santiago – uma cidade linda, cheia de atrativos e cercada por duas cadeias de montanhas: a Cordilheira dos Andes e a Cordilheira da Costa. As diferenças de clima e solo nos seus quatro subvales são bem marcadas, o que oferece uma grande diversidade de terruás. Tem plantações de parreiras subindo e descendo as montanhas, ao redor de condomínios de casas e do seu comércio, em varandas formadas por deslizamentos e nos lugares mais improváveis e inesperados. O que sempre é uma bela surpresa para todos os sentidos de quem visita a região do Vale Central!

Vale de Maipo


Foi na generosa bacia do rio Maipo, rica em água e terras férteis, que os espanhóis escolheram para fundar a cidade de Santiago. O rio nasce na Cordilheira dos Andes, nos pés do vulcão Maipo, e é uma corrente que atravessa o vale de leste a oeste, levando uma quantidade de água que varia dependendo da estação do ano. Tem uma extensão de 250 quilômetros e em seu percurso recebe águas de outros rios de origem glacial, sendo o  Mapocho – o rio que cruza a cidade de Santiago – um dos seus mais importantes afluentes. Em períodos de chuva ou degelo (principalmente no inverno e na primavera) quando o nível de água cresce consideravelmente, as águas do rio Maipo ganham um aspecto turvo, isso porque ele atravessa lugares ricos em cal e recebe as águas do Yeso – rio que nasce na lindíssima represa de Embalse el Yeso. Essa água rica em cal e outros minerais talvez seja o principal motivo que marca a diferença nos terruás do Vale de Maipo e que se reflete em seus divinos vinhos.

É o vale mais prestigiado do Chile e no mundo por seus notáveis vinhos tintos, principalmente por seus cabernet sauvignon – variedade que representa mais de 50% das plantações de um total que soma 9.000 hectares. E foi nas ribeiras do rio Maipo que as primeiras variedades francesas foram plantadas, ainda no século XIX. O vale também foi berço das mais antigas e tradicionais vinhas do Chile: Concha y Toro, Santa Carolina, Cousiño Macul e Santa Rita. Construídas com ladrilhos e uma argamassa de cal e ovos – chamada de cal y canto – inspiradas em modelos franceses. Vinhas que em algum momento da história estiveram isoladas por seus imensos muros e que hoje fazem parte da agenda turística da cidade. Essa proximidade das vinhas com a cidade (ou da cidade com as vinhas), tornou o Vale de Maipo o mais urbano do país e também o de mais fácil acesso aos turistas estrangeiros. Dentro e fora dos muros tem muito o que se fazer, visitar e provar: restaurantes, museus, parques, mirantes, observatórios. Além da sua impressionante beleza emoldurada pelas montanhas da Cordilheira dos Andes – beleza que se pode contemplar olhando para qualquer lugar.

O clima do vale é de calor moderado com estações bem marcadas – as chuvas se concentram no período do inverno e atingem uns 400 mm por ano. Já o verão é seco e quente, o que permite que as uvas alcancem uma boa maduração. Outro fator que influencia na qualidade das uvas é a grande variação de temperatura entre o dia e a noite – chegando até 20 graus – e se deve às brisas frescas que baixam do alto das montanhas e refrescam as parreiras e o solo.

Maipo é o vale que mais sofre com o crescimento urbano, mais precisamente em direção a terrenos que são uma verdadeira joia para a elaboração de vinhos de alta qualidade. E é admirável como algumas vinhas, entre elas a Quebrada Macul, Aquitania, Almaviva e Viñedos Chadwick resistem em vender as suas terras e buscam seguir crescendo e comprando novos terrenos para o cultivo.

Na região de Cajón del Maipo tem plantações que chegam até 900 msnm e são principalmente de chardonnay, sauvignon blanc, syrah e malbec – variedades que gostam do frio que faz no alto das montanhas. Nessa zona o solo está composto principalmente de cinzas vulcânicas, sedimentos fluviais, argila e outros materiais que se desprenderam de montanhas ainda mais altas da Cordilheira dos Andes. A origem desse solo tão rico está relacionada com os períodos pós-glacial, quando violentos deslizamentos de água misturados com barro e pedras desceram em direção a Santiago. Esses deslizamentos criaram amplas “varandas” com ótimas características para o cultivo e a elaboração de grandes vinhos ícones de uma das uvas mais apreciadas: a cabernet sauvignon!

O setor batizado de Alto Maipo, localizado nos pés da Cordilheira, foi reconhecido por sua qualidade e potencial e é nele onde estão as vinhas mais tradicionais do país. Mas vale lembrar que o cultivo de uvas para vinhos se desenvolve ao longo de toda a bacia do rio Maipo. Das localidades de Isla de Maipo e Talagante, num setor chamado de Maipo Médio, nascem extraordinários vinhos das uvas syrah, cabernet sauvignon e carmernère. Para os amantes dessas uvas, fazer uma visita nas vinhas Undurraga, Chocalan e Odfjell é uma experiência imperdível.

Vale do Rapel | Cachapoal e Colchagua


Este extenso e fértil vale está fracionado em dois importantes e prestigiados subvales: Cachapoal e Colchagua, somando um total de plantações em torno de 46.000 hectares, sendo 60% das variedades de uvas tintas. O Vale do Cachapoal se divide entre as atividades de mineração e o cultivo de frutas e uvas para a produção de vinhos. É um vale novo e antigo ao mesmo tempo, já que convivem plantações muito jovens junto à velhas parreiras. O rio Cachapoal é quem banha a região, ele nasce em um glacial na Cordilheira dos Andes e percorre 170 quilômetros, recebendo as águas de vários outros rios afluentes.

O clima do vale é de calor moderado também, uma longa estação de seca, e chuvas – principalmente no inverno – que não passam de 500 mm ao ano. Seus solos pedregosos e de moderado conteúdo orgânico somado aos ventos frescos que baixam da Cordilheira, estão dando origem a extraordinários vinhos tintos, principalmente da uva cabernet sauvignon e syrah, e também a atrativos carmernère, merlot e cabernet franc. O total de plantações somente em Cachapoal é de 11.000 hectares, sendo que 75% são de uvas tintas.

Cachapoal se divide de leste a oeste, com plantações no alto das montanhas – a vinha Calyptra tem uvas plantadas à beira do rio e a quase 1.000 msnm –  em suas pendentes e na parte plana do vale. Peumo – uma das zonas mais notáveis de Cachapoal – é onde se cultiva os mais afamados vinhos carmernère do Chile. Fica a dica! A variedade se desenvolve de forma excepcional nesta zona, sobre solos profundos de antigas “varandas aluviais”. Durante o período de crescimento das uvas os dias são quentes e as noites mais frescas, o que permite um perfeito amadurecimento até o momento da colheita. A vinha Mi Luna é uma das pérolas do vale, com uma pequena plantação de variedades tintas e brancas em um entorno lindíssimo, onde a tradição e a simplicidade se mantém, além da imensa paixão do seu dono Rodrigo em elaborar vinhos inteiramente artesanais – da terra à taça.

Cachapoal segue se desenvolvendo com força, novas parreiras plantadas em ladeiras e que tiram proveito dos dias de céu limpo e ensolarado. Em zonas próximas ao litoral, crescem tímidas plantações de variedades brancas como chardonnay e sauvignon blanc, que se beneficiam e agradecem pelo frescor marinho que recebem. Futuros vinhos que poderão estampar com muito orgulho o nome Rapel como a sua denominação de origem. 

Seu nobre vizinho, o Vale do Colchagua, é uma zona campesina por tradição e onde os seus vinhos de uvas cabernet sauvignon, carmernère, syrah e malbec ganharam a fama de maduros e corpulentos. No entanto, propostas de vinhos elaborados com uvas mediterrâneas e brancos de origem costeira, vem sendo reconhecidas e bem recebidas. Uma demonstração da imensa diversidade que é possível encontrar – de montanhas a mar – nos vales chilenos. 

A cultura do vinho em Colchagua começou ainda nos anos 1500, com a chegada dos conquistadores espanhóis ao Chile. Foram eles quem trouxeram e plantaram as primeiras parreiras, o motivo maior na época era o uso do vinho pelos missionários jesuítas na celebração das missas e também na evangelização do povo. Mas a produção de vinhos de alto nível no vale tomou força somente depois dos anos 90, quando começou a modernização da atividade vitivinícola no país. Bem recente não é? Atualmente, as plantações no Vale do Colchagua alcançam 30.000 hectares de belíssimas e intermináveis fileiras de uvas, principalmente as tintas.

O Vale do Colchagua foi o primeiro a elaborar com êxito uma rota do vinho – graças a iniciativa de um grupo de empresários inovadores – reconhecida a nível internacional em 2005 como Best Wine Region in the World pela revista Wine Enthusiast. E ainda hoje o vale mantém viva uma surpreendente capacidade de se renovar e se reinventar, desenvolvendo áreas ainda não exploradas para o cultivo ou plantando variedades novas que se adaptam às suas condições climáticas e de solo.

O vale é banhado pelas águas do rio Tinguiririca, que nasce na cordilheira e percorre 170 quilômetros até se juntar com o rio Cachapoal e ambos desaguam num embalse. O vale está delimitado dos seus vizinhos do sul e do norte, por cadeias montanhosas transversais – braços de montanhas que descem da cordilheira e formam um corredor que abre caminho para que os ventos do Pacífico cheguem até a coração do vale – onde prevalece um clima com verões calorosos, secos e prolongados, e invernos moderadamente chuvosos – entre maio e agosto – e que alcançam uns 600 mm ao ano.

São poucas as vinhas que estão mais próximas das montanhas, Casa Silva, Koyle, Santa Helena e Cono Sur são algumas, a maioria estão concentradas no coração do vale, fracionado em três setores de plantações: os terrenos planos perto do rio e com solos de origem vulcânico especialmente bons para as variedades carmernère e malbec; os solos nos piedemonte, com leves pendentes e compostos de uma mistura de argila e pedras, onde as uvas syrah e cabernet sauvignon se desenvolvem muito bem, principalmente as do prestigiado setor de Apalta; e os solos elevados, nas fortes pendentes e com uma composição granítica, onde a uva syrah se desenvolve de forma notável.

Antes do auge que viveu Colchagua na década de 90, muitos agricultores colchaguinos já vinham de uma longa tradição no cultivo e produção de vinhos, principalmente os vinhos a granel. A chegada de importantes empresários estrangeiros – como a família Marnier Lapostolle, entre outras – possivelmente foi o motivo da grande mudança que o vale viveu. Hoje, Colchagua está buscando mais qualidade e inovação aos seus vinhos, com plantações em ladeiras e próximas ao setor costeiro, mostrando que não tem solos somente para os prestigiados vinhos tintos, mas também para vinhos brancos frescos, cítricos e minerais – cada vez mais apreciados! 

Vale de Curicó


Águas negras – é o significado do nome Curicó na língua indígena dos Mapuches, tendo eles uma forte ligação com as origens da produção de vinhos no Chile. A vitivinicultura é uma das principais atividades na região quase que desde a sua fundação, em 1743. E foi nos vales curicanos que Miguel Torres – conhecido empresário espanhol – se instalou e trouxe a modernização tecnológica que mudaria radicalmente o cenário do país, e graças a ele, hoje a indústria chilena de produção de vinhos está entre uma das mais importantes do mundo. Foi também graças a Miguel Torres a criação da festa de vendimia, no ano de 1987 em Curicó – a primeira realizada no Chile.

O Vale de Curicó está a 200 quilômetros de distância de Santiago, no sentido sul. Da estrada, vemos as suas intermináveis plantações que alcançam os 16.000 hectares e também vemos um conjunto de vulcões chamado Planchón-Peteroa – rota do voo 571 que ficou conhecido como A tragédia dos Andes. O vale é fracionado nos subvales Rauco e Romeral (banhados pelo rio Teno), Molina e Sagrada Família (banhados pelo rio Lontué). Estes dois rios nascem em plena Cordilheira dos Andes e percorrem em torno de 100 quilômetros, recebendo águas de outros afluentes em seus percursos antes de se juntarem e formarem o rio Mataquito, o principal rio da região que percorre mais 95 quilômetros e desemboca numa praia de areia preta chamada Iloca – de uma beleza diferente da famosa praia de Viña del Mar e com uma marcada história de superação, depois de ter sido devastada em 2010 por um terremoto – seguido de tsunami – que alcançou 8,8 na escala Richter, atingindo parte da costa chilena. 

O clima no vale é mais úmido – em relação ao seus vizinhos Cachapoal e Colchagua – com uma estação seca bem prolongada e chuvas principalmente no período do inverno, que chegam a 700 mm ao ano. O vale também é fracionado de cordilheira a mar, com três zonas de características climáticas e solos bem diferentes entre si. Próximas da Cordilheira da Costa –  uma zona com clima mais úmido e fresco – tem antigas parreiras das uvas país, semillón e malbec  cultivadas em secano, algumas dessas parreiras dão origem ao Single Vineyard Limávida, um notável malbec da vinha De Martino. Para os amantes desta cepa, vale provar! Já na zona central do vale, o clima é mais caloroso – uma cadeia de montanhas freia os ventos que chegam do Pacífico. E nas zonas piedemonte o clima é menos úmido e temperaturas moderadas, ideal para vinhos mais frescos e ácidos. 

O cultivo e a produção de vinhos em Curicó já leva mais de 300 anos, mas foi só depois de 1990 que as plantações de uvas para a elaboração de vinhos finos cresceu de forma significativa. Hoje o vale está focado na busca de novos lugares para criar melhores vinhos. Um exemplo dessa busca é a troca de velhas plantações de chardonnay e sauvignon vert – muitas destas parreiras plantadas em lugares inadequados – por variedades que se adaptam melhor aos climas e solos da região, com uma ótima relação preço-qualidade. O que nós só temos a agradecer e apreciar! 

Vale do Maule


O Vale do Maule passou décadas produzindo vinhos em grandes quantidades, deixando de lado o fator qualidade. Hoje, as suas plantações alcançam um total de 54.000 hectares – incluindo o Vale do Curicó, que administrativamente faz parte da região do Maule – o que equivale à quase um terço das plantações de todo o Chile, sendo 75% de uvas tintas e a metade dessas plantações advinha de qual uva é? Sim, a rainha cabernet sauvignon!

Maule tem a vantagem da modernidade somada as práticas de cultivo e produção nascidas ainda no período da conquista espanhola, o que tem levado a muitos vinhateiros e enólogos a enxergar com um novo olhar as suas antigas tradições, as suas velhas parreiras e os seus vinhos especiais. Características tão admiráveis e que estão intimamente ligadas a uma forma de vida mais simples e tradicional da região. As inversões de capital nacional e estrangeiro, além da imensa vontade de se preservar esse incalculável patrimônio para a identidade do vinho chileno, promete grandes benefícios a uma região que está renascendo! 

A parte sul de Maule está situada a uns 300 quilômetros de Santiago – onde as montanhas da Cordilheira dos Andes perdem altura e não passam de 4.000 metros de altitude. Compreende as províncias de Talca, Linares e Cauquenes – com suas zonas de larga tradição vitivinícola como San Javier e Villa Alegre. Praticamente todo o cultivo do vale se desenvolve em torno da bacia do rio Maule, que nasce a 2.200 metros de altura, na laguna Maule. Sua origem é vulcânica e percorre cerca de 240 quilômetros antes de desembocar no mar, em Constitución – cidade que também foi atingida pelo terremoto de 2010. Hoje, Constitución está refeita e segue recebendo turistas que querem conhecer a sua história e as suas praias de rochas e areias pretas.

Além dos diferentes climas e solos – de montanhas a mar – que existe em todos os vales do Chile, em Maule também existe uma divisão de zonas mais modernas e outras zonas mais antigas e austeras. Nas zonas mais avançadas em tecnologia, existem vinhas de última geração focadas na elaboração de vinhos de alta qualidade feitos a partir de variedades finas e jovens. Enquanto que em outros setores, batizados de secano interior, tem plantações de parreiras antigas especialmente das uvas carignan, país e malbec e também parreiras de mourvèdre e moscatel – a maioria cultivadas sem irrigação e num sistema livre de crescimento.

Uma das mais importantes iniciativas para resgatar o valioso patrimônio das antigas parreiras do secano maulino foi a criação em 2011 da Vigno – uma associação de vinhas que se comprometeram em elaborar vinhos de alta qualidade da uva carignan. A marca Vigno identifica os seus vinhos de maneira similar a uma denominação de origem. A variedade carignan foi trazida da França ao Chile, na metade do século XX, como uma forma de melhorar as características da uva país, que entrega vinhos de pouca cor e baixa acidez. Com plantações plenamente maduras, a uva carignan tem alcançado uma expressão única nas terras do Maule. Suas notas de ameixas ácidas e suculentas, seus taninos rústicos e sedutores, seus aromas florais e minerais estão encantando ao mundo e entregando um notável reconhecimento à iniciativa da associação Vigno. 

E além da iniciativa Vigno, outros vinhateiros estão apostando em experiências em plena Cordilheira da Costa, com plantações de parreiras que buscam novas expressões para os seus vinhos de qualidade. Uma das apostas é do espanhol Miguel Torres num setor chamado Empedrado, perto da cidade de Constitución (aquela mesma do terremoto). Suas plantações em “varandas” desafiam os fortes ventos costeiros e a voracidade das industrias florestais, que já cobriram de pinheiros a maior parte dessa zona. No entanto, no caso da vinha Torres, todos os esforços tem valido a pena: seu extraordinário pinot noir Las Terrazas é o melhor exemplo! E você… Já provou essa maravilha? 

O redescobrimento do Vale de Maule tem atraído o interesse de diversas vinhas, que disputam a compra das suas apetitosas uvas – uvas que produzem valiosos vinhos e com uma forte identidade de origem. E encontrar autenticidade e prazer em uma taça de vinho, é algo divino não é mesmo?!


Fonte de Estudo: Vinos de Chile | Editora CONTRAPUNTO
Crédito das fotos @feriasnochile


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