País, a uva patrimônio

Talvez você nunca tenha escutado falar da uva país ou provado de um vinho feito com ela. Mas, se você está lendo este texto, imagino que tenha alguma curiosidade sobre o universo dos vinhos, e hoje a protagonista é ela, que merece sim a sua atenção. Para falar de país, que atualmente ganha medalhas em concursos internacionais e atrai o olhar dos bons restaurantes em Santiago, primeiro vamos repassar a sua história: de onde vem, quem a trouxe para o Chile e por que é tão importante como patrimônio.

Começamos pelo seu nome, que no princípio era outro: ela era chamada de listán prieto ou listán negro. Com origem na região de Castela, na Espanha, foi levada para as Ilhas Canárias pelos espanhóis durante a invasão de Castela, no século XV. Desde então, viajou nas diferentes missões de expansão do reino espanhol, chegando até o continente americano. Na América entrou pelas regiões da Califórnia e México, onde o seu nome mudou para misión.

Avançando na linha do tempo, no século XVI a uva país [junto com a moscatel] chegou ao Chile, vinda do Peru por mar, com um jesuíta espanhol chamado Francisco Carabantes. Antes disso, não existiam parreiras no Chile, e os povos indígenas que habitavam as diferentes regiões do país tomavam chichas elaboradas principalmente à base de grãos. Com a chegada da colônia espanhola, ao mesmo tempo que ocorriam as batalhas e a expansão da coroa, vieram também o idioma espanhol e a religião católica – considerada na época como única e obrigatória.

A evangelização pedia como ingrediente principal o vinho, que ainda não existia no Chile. Com a introdução das primeiras parreiras, trazidas pelo jesuíta Carabantes, teve início a indústria de vinhos, liderada pela listán prieto, que só no final do século XIX passou a ser chamada de país pelos chilenos.

Na metade do século XIX chegaram ao Chile variedades de uvas vindas da França pelas mãos tanto de imigrantes franceses como de chilenos, principalmente os aristocratas, que retornavam das suas viagens pela Europa. Estas uvas, consideradas as melhores, eram a novidade e num piscar de olhos tomaram o lugar da país. A uva país ficou de lado na nova moda de fazer vinho com as francesas cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, entre outras. Na sombra, ela sobreviveu apenas no setor rural onde os camponeses elaboravam chichas, aguardentes e vinho em garrafão.

Passaram ao menos 140 anos para que diferentes profissionais da indústria do vinho chileno, cansados de sempre copiar o que se fazia na Europa, olhassem para a uva país com a atenção que ela merecia. Começaram então um movimento de revalorizar e a trabalhar o tremendo potencial que ela tem. Foi a Universidade de Talca que iniciou a investigação e desenvolvimento da variedade; em conjunto com a vinha Miguel Torres, deram à luz um espumante 100% elaborado de país, batizado de Estelado. Esse acontecimento mexeu com a indústria e gerou um efeito dominó, em que a bastarda país, a feia, a que todos haviam rejeitado, reaparece. Hoje ela brilha sozinha e também em mesclas. Faz pouco ela foi protagonista de um dos maiores concursos de vinhos do mundo organizado na Inglaterra, e junto com as uvas cinsault e carignan, a mescla se destacou como um dos melhores vinhos da competição.

A maioria das parreiras de país estão plantadas em forma de cabeça, um sistema de condução que se parece com um arbusto. É uma variedade que não precisa de irrigação por ser rústica e muito resistente ao clima seco do Chile. Ela se alimenta e sobrevive somente com o que a natureza lhe oferece, e é nas regiões do Maule, Itata e Bío Bío que ela se desenvolve com grande esplendor.

O vinho elaborado da uva país é um rico suco que, bem-feito, entrega muita fruta vermelha, taninos poderosos e um final fantástico em boca. Por ser um tinto de corpo médio [assim como a branca chardonnay], é perfeito para diferentes preparações gastronômicas e para acompanhar pratos típicos da mesa chilena, como um pastel de choclo ou uma empanada de carne.

Seja na versão chicha, espumante, mescla ou sozinha, te recomendo provar uma tacinha, depois outra e outra!

Salud!

Bete Veingartner | setembro 2021


Texto em parceria com @hello_wine

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