Fiestas Patrias

Setembro de celebrações

1º de janeiro e começa a contagem regressiva pelo 18 de setembro, o feriado mais esperado e festejado por  muitos chilenos que vivem dentro e fora do país. O ano se constrói com base neste feriado, mas por conta do covid-19, este 2020 vai ser bem diferente, as tão famosas fondas e ramadas – festas que se realizam em todo o Chile com barraquinhas de comida e bebida típica, muito vinho, dança, música, alegria, artesanato, cultura – vão ser substituídas por celebrações mais intimistas, familiares e caseiras.

Em anos normais, setembro já começa animado com a homenagem ao vinho chileno no dia 4 – um dia para celebrar a cultura da elaboração de vinhos, desde o século XV. E sabem o porquê da data? Bem, voltando no tempo, o colonizador espanhol Pedro de Valdivia mandou uma carta ao rei Carlos da Espanha [lembrando que o Chile foi colônia dos espanhóis por quase 300 anos] pedindo vinho e parreiras para plantar no novo território colonizado. O rei atendeu ao pedido de Valdivia, já que o vinho não podia faltar na evangelização e também por que fazia parte da mesa dos espanhóis. A tal carta foi enviada em 4 de setembro de 1545, mas somente no ano de 2015 a data entrou alegremente para o calendário de celebrações oficiais do Chile.


E o 18 de setembro?

Conto em uma pincelada sobre a história do Chile: com a chegada dos espanhóis em território chileno, no século XVI, o país foi domínio da coroa espanhola, e o que dizia o rei sentado em seu trono lá na Espanha, era lei aqui no Chile. Mas nem todos acataram e aceitaram a colonização e muitas batalhas aconteceram, principalmente entre os espanhóis e o povo Mapuche – um dos povos originários e mais importantes do Chile. Durante a metade do século XVIII começaram a aparecer idéias de independência, com o tempo o descontentamento foi crescendo e o desejo de liberdade aumentando. Em 1908 o Chile ficou sem reinado, já que o rei da Espanha foi capturado e preso por Napoleão, este fato foi crucial para o início da desejada independência. Em Santiago, em 18 de setembro de 1810, por pressão da população, se realiza a primeira Junta Nacional do Governo – uma reunião de personagens que representavam o povo. Esta reunião foi o ponto inicial do processo de independência do país, que aconteceu de fato somente em 12 de fevereiro de 1818.

Você deve estar se perguntando porque então a celebração não acontece no dia 12 de fevereiro? Bem, por questões práticas, acharam que seria um começo de ano com uma agenda muito intensa, escolheram então o 18 de setembro, e assim terem mais tempo para planificar todo o festejo que a data merece.

É uma festa que acontece nos parques e praças de todo o país embalada pela cueca, uma dança alegre e folclórica. O Chile se veste de vermelho, azul e branco e por onde passamos vemos o patriotismo estampado nas bandeiras que colorem as casas, os carros, as ruas e o coração dos chilenos. Comidas típicas como as empanadas, os anticuchos [espetinhos], o churrasco e o favorito mote con huesillo [suco de pêssego com trigo] são os protagonistas desta festa que contagia a todos, chilenos ou não.

 

O rei da festa é definitivamente o vinho, em versões que você winelover precisa conhecer! Antigamente, antes da chegada dos espanhóis, se elaborava uma bebida simples com métodos campestres e a base de milho ou trigo, chamada de chicha. Com a chegada das parreiras, esse vinho simples passou a ser elaborado com uva e em diferentes estilos, dependendo do seu lugar de origem. Uma das chichas mais conhecidas é elaborada na região central do Chile, em duas versões: crua e cozida. A versão crua – a que se toma nas festas de vendimia [festa da colheita que acontece no final da primavera e início do outono] – é feita do suco da uva fermentado parcialmente, o que resulta em um vinho doce e com pouco álcool. A versão cozida – a que se toma nas festas do 18 – é um pouco mais elaborada e inclui a guarda em barricas ou ânforas seladas com barro.

O outro vinho famoso desta festa é o Pipeño, elaborado principalmente da uva país e de outras uvas patrimoniais como a  cinsault e moscatel. No seu processo de elaboração, as uvas são parcialmente asoleadas (secas no sol), com uma curta fermentação alcoólica, o que resulta em outro vinho docinho e pouco alcoólico. O vinho foi batizado como Pipeño porque os camponeses chamavam de pipas, os recipientes onde se guardava o caldo da uva que estava fermentando. É um vinho do campo cheio de  tradições e que se converte em uma estrela quando chega o mês de setembro, isso por que ele é o ingrediente principal do Terremoto – o famoso coquetel que é servido em grandes copos de 400cc leva na sua receita: sorvete de abacaxi, vinho Pipeño e um toque de Fernet ou Granadina. E o porquê do nome? Uma das versões conta que ele foi criado justo depois do grande terremoto de 1985, que sacudiu a região de Valparaíso. Bem, já deu para imaginar a sua intensidade não é mesmo? Ah, tem também a versão Tremor, para quem prefere uma dose menor de emoção, rs.

Com tremor ou terremoto, anota aí na sua agenda: conhecer o Chile no mês de setembro! Tem neve, tem sol, tem o início da primavera e as parreiras começando a brotar, tem a celebração do vinho chileno e tem as fondas. Muita coisa boa em um só mês!

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